O pesar do dia a dia: Hirayama-san e Sísifo
Neste artigo exploro algumas relações entre o filme Dias Perfeitos com ajuda de Sísifo e C. G. Jung num possível apontamento ao um retorno à vida simples. O dia a dia de Hirayama-san (Koji Yakusho), um faxineiro de banheiros públicos de uma região de Tóquio, é retratado no filme “Dias Perfeitos” de Wim Wenders. Ele acorda, dobra seu futon (cama), guarda seu livro que estava lendo na noite anterior, escova os dentes, faz a barba, rega suas mudas de plantas, veste sua roupa de trabalho e assim vai seguindo uma sequência de atividades rotineiras até enfim retornar para o seu lar e começar tudo novamente no dia seguinte.
Lembrei-me de Camus: “É preciso imaginar Sísifo feliz”. Sísifo é uma personagem da mitologia grega que tentou enganar a morte e foi condenado a viver empurrando uma pedra até o topo de um monte que quando alcançado faria a pedra rolar novamente para baixo. Se Sísifo ressoa como uma possível metáfora da condição humana, dos nossos trabalhos e atividades repetitivos do dia a dia que, no dia seguinte se repetirão, então que imaginemos Sísifo ao menos feliz; imaginemos Hirayama-san se surpreendendo, entre um momento rotineiro e outro, com a dança das luzes e sombras das folhas das árvores.

A palavra komorebi (木漏れ日) no japonês serve para designar o fenômeno do brilhantar gerado pelo movimento das luzes e sombras de quando o sol penetra entre as folhas das árvores enquanto essas são balançadas pelo vento. Um brilhantar no meio de um jogo de luzes e sombras. Nossos momentos de luz dançando com nossos momentos de sombra.
E é assim que, a partir do inesperado que vez ou outra fura o manto da rotina diária, nosso protagonista se deixa, de forma muito leve e em paz consigo mesmo, surpreender-se com e apreciar momentos de lacunas em meio à sua sisífica rotina. Mas não paremos por aí: o filme parece apresentar uma complexidade muito maior que essas ideias clichês que eu trouxe até o momento. Para isso, precisaremos sair um pouco de Tóquio e irmos até a Suíça, terra natal de Carl Gustav Jung.
De Tóquio à Zurique
Folheando o volume 18/2, “A vida simbólica”, das obras completas de Jung, deparei-me com um texto de 1941 (reparem bem na data) chamado “Retorno à vida simples” do qual cito um trecho que me parece importante por servir como uma luva para os dias atuais:
Todos os meios para economizar tempo, entre os quais estão as facilidades de comunicação e outras comodidades, paradoxalmente não economizam tempo; só servem para encher o tempo disponível de tal forma que não se tenha tempo para mais nada. Disso resulta forçosamente uma pressa febril, superficialidade e fadiga nervosa com todos os sintomas concomitantes como ânsia por estímulos, impaciência, irritabilidade, vacilação etc. Este estado pode levar a várias coisas, mas não a uma cultura maior do espírito e do coração.
(JUNG, 2012 [1941], vol. 18/2, parágrafo 1343, grifo meu)
Espero ter apresentado aqui um pouco da visão macro de Jung a respeito da sociedade. A partir deste trecho, uma cena do filme passa pela minha memória: o jovem colega de trabalho de Hirayama-san com uma mão limpando a privada de um dos banheiros de costas pra ela enquanto com a outra mão “mata o tempo” mexendo em seu celular. A imagem é inequívoca: um ser humano dividido. Ou como diria Jung, um ser humano em desunião consigo mesmo. Esta imagem está acontecendo a todo momento: se você é um dos abençoados que conseguiu não se contaminar com este tipo de divisão que a tecnologia provoca, basta lançar um breve olhar ao seu redor em qualquer via pública perto de você.
Num cenário como este, não vejo possibilidade alguma de se aproximar de um estado de inteireza da alma. A cena oposta a esta, de um estado de inteireza, acontece quando são apresentados o empenho, a concentração e o cuidado que Hirayama-san tem ao, por exemplo, limpar o vaso sanitário de um dos banheiros em que trabalha. Ele utiliza até um espelhozinho de mão para verificar com maior precisão e cuidado se todas as partes estão devidamente limpas. Um estado de espírito invejável, porque não?
O grande desafio – totalmente contraintuitivo – é que ser simples, como parece ser o mote de vida de Hirayama-san, não é fácil . Por que? Para isso precisa-se atingir um certo nível de presença, inteireza e envolvimento em cada evento, cada atividade, cada ação, cada momento, por mais simples que eles sejam. Consideremos ainda o ambiente social atual que não favorece uma união consigo mesmo (expressão de Jung para descrever o estado de divisão da alma), mas pelo contrário: constantemente divide e despedaça nossas almas em milhares de partes. A inteireza requer que se esteja no momento presente por inteiro e é isso que parece emanar de Hirayama-san quando apresentado o seu dia a dia: estar inteiro e envolvido em cada momento que participa em sua vida, seja agradável ou não.
Fiquemos com mais um trecho de Jung:
A isca que nunca falha é o chamado “futuro melhor” que impede a pessoa de integrar-se no presente em que vive realmente para dele fazer o melhor possível. Já não se vive no presente para o futuro, mas irrealisticamente no futuro, privado do presente e, mais ainda, do passado, separado das raízes, desenraizado, despojado da continuidade, eternamente enganado pela fata morgana zombeteira de um “futuro melhor”.
(JUNG, 2012 [1941], vol. 18/2, para. 1345, grifo do autor)
Um retorno à vida simples: Hirayama-san nosso de cada dia
Quero pegar outro recorte do filme que me evocou algumas reflexões: Hirayama-san gosta de ouvir fitas K-7 no seu carro enquanto se dirige ao trabalho. Ele escolhe a fita, insere no seu toca-fitas e começa a dirigir numa cena harmônica e cotidiana. Como uma possível leitura psicológica, ocorreu-me que as fitas K-7 indicam simbolizar um “modo antigo” de se viver – talvez um retorno à vida simples? – que obviamente não nos cabe julgar se é melhor ou pior. É apenas um outro jeito de viver. Entretanto, além de antigas, elas são dotadas de uma outra qualidade que a obra nos apresenta: as fitas K-7 voltaram a ser extremamente valiosas e raras. Psicologicamente poderíamos pensar então que este “modo antigo” de vida se tornou valioso e raro de encontrar. Sim, podemos afirmar que é energicamente custoso viver no modo fita K-7, sem pressa, de modo inteiro. Porém, aquele que o conseguir obtém também o retorno de uma vida mais integrada, uma vida mais viva. Pergunto-me agora se seria esta uma das possíveis mensagens do filme. Não corri atrás pra saber se o diretor ou roteirista teve essa intenção, mas a coloco aqui como um questionamento que me ocorreu.
Não posso deixar de mencionar que, conforme o filme vai passando, é como se fôssemos sendo apresentados às camadas mais e mais profundas e complexas da vida aparentemente simples do nosso protagonista. Os temas mais sombrios e que deixam Hirayama-san mais desconfortável, como a cena com a sua irmã e as cenas que fazem alusão à sua vida amorosa, são apresentados no decorrer da trama e não deixam a obra num nível simplório e superficial de que tudo são mil maravilhas, trazendo uma profundidade que deixa a história contada muito mais completa e complexa. A cena final deixa isso muito claro: enquanto Hirayama-san dirige seu carro, as expressões do ator vão se alterando e parecem, de uma forma muito fluída, dançar entre sorrisos, tristezas, esperanças, decepções, determinações, sonhos, luzes e sombras.
À medida que fui escrevendo, uma ideia não pôde deixar de me revisitar constantemente: lembro-me do filósofo coreano Byun-Chul Han em seus livros “Sociedade do Cansaço” (2019) e “Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida” (2022) apontando para um equilíbrio entre o modo de vida ativa e o modo contemplativo de viver. No demorar-se contemplativo nas impressões, nos sabores, dissabores e saberes das vivências pelas quais passamos diariamente e além disso: não reduzir a parte contemplativa da vida ao mero “descanso”, mas alargar esta dimensão para o ócio, para aquilo que não tem obrigação para com a utilidade/produtividade – o que ele chama de não-para – , pois paradoxalmente é este ócio que abre e gesta o lugar do criativo.
O excesso de positividade e de atividades que pulsam da nossa sociedade atual permitem apenas o continuar pensando ininterrupto e renega para a sombra do psiquismo o aspecto essencial da psique: a reflexão. Refletir, revisitar, recordar, reconhecer, rememorar, retomar, religar, relegere. Não há tempo nem espaço para um momento reflexivo; há apenas um incessante continuar. Continuar o que e a serviço do que se mal conseguimos estar inteiros numa simples atividade?
Estas foram algumas ideias, reflexões, associações e pensamentos que me ocorreram até o momento da escrita deste texto e espero que de alguma forma tenha contribuído com as suas reflexões.
Referências
HAN, B-C. Não-coisas: reviravoltas do mundo da vida. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.
HAN, B-C. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.
JUNG, C. G. A vida simbólica: escritos diversos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. (Obras completas de C. G. Jung, v. 18/2)
Reflexões profundas que fazem muito sentido! Adorei! Obrigada por compartilhar!
Essa observação “É preciso imaginar Sísifo feliz” é muito perspicaz e me arremeteu ao filme. Gostei também da referência de Jung em relação às tecnologias que “facilitam” nossa vida, vale uma bela reflexão. Obrigada pelo texto!
Que bom que gostou!
É verdade, a reflexão sempre é válida. Bom que gostou!