Dor, (re)conexão e sentir-se vivo
Julio Ito, psicólogo
por Julio Ito
Psicólogo (CRP 06/130191)

Introdução

Partindo da constatação de que na maioria dos casos, ao longo da existência, a vida vai sendo preenchida por dores e delícias, uma vida Inteira com “i” maiúsculo requer então no mínimo o (re)conhecimento de tais eventos.

O discurso atual da sociedade da performance e do culto à positividade (tóxica) contamina a alma contemporânea, sufocando qualquer manifestação “negativa” que seja de uma dor, de uma tristeza, de uma frustração, de uma dependência, de um estado afetivo tão básico quanto o ar que respiramos. Não à toa, Jung enfatizou o contato com a sombra ser o estágio básico – como a base de uma pirâmide – em direção à realização da personalidade total de uma pessoa. Lembro-me nessas horas de um bordão citado por Jung no decorrer de sua obra. Parafraseio-o a seguir: “entrega tudo que tens e então receberás”. Era algo do tipo. Entregar tudo, no sentido simbólico, é tudo mesmo: a luz e a sombra. Repare bem. Não é somente um ou outro. Não é (re)conhecer só um ou só outro. São ambos. Tudo (o máximo, na medida do possível de cada um).

Em complemento, gosto de uma citação de Jolande Jacobi:

Seguramente, a representação geral vigente, de que o desenvolvimento psicológico acaba levando a um estado no qual já não há sofrimento é completamente equivocada. Sofrimento e conflitos fazem parte da vida , e não podem ser vistos como “enfermidade”; são os atributos naturais de todo e qualquer ser humano, são como que o pólo contrário normal da felicidade. É só onde o ser humano procura fugir deles por fraqueza, covardia ou incompreensão que surgem a enfermidade e os complexos.

Haveria então alguma relação entre dor e sentir-se vivo?

A mágica do processo psicoterapêutico: “Estou me sentindo mais vivo”

O que tenho a compartilhar aqui, não é só derivado de uma experiência pessoal, mas também um fenômeno observável que frequentemente ocorre nos consultórios de psicologia clínica no geral.

Os indivíduos que iniciam um processo psicoterapêutico, se tudo der certo, em algum momento, relatarão seus sofrimentos, entrarão em contato com eles e os aprofundarão através de um processo de elaboração desses conteúdos. Frequentemente e não à toa, quando isso acontece, eles voltam a se sentir vivos (ou mais vivos), mesmo sentindo dor, pois um dos grandes sofrimentos que alguém pode sentir é o de ter uma vida em que o sujeito está anestesiado e alienado das próprias emoções, da própria história, do próprio corpo, do próprio contexto cultural, da própria alma, da própria existência. Nestes casos, a possibilidade de sentir dor é ambígua: ao mesmo tempo que gera ansiedade, gera também a possibilidade de libertar o sujeito de sua gélida jaula da mortificação.

Estou me sentindo mais vivo

É aí que muitos pacientes no decorrer do processo psicoterapêutico, ao falarem sobre seus “causos” e sofrimentos, constatam: “Estou me sentindo mais vivo!”. Por mais paradoxal que isso seja, quase como uma mágica, este fenômeno acontece. Mas de mágica não tem nada: quando nos (re)conectamos com a nossa dor, com aspectos que reprimimos, seja de forma voluntária ou involuntária, nos sentimos mais vivos, pois nos (re)conectamos também com partes nossas carregadas de energia, de libido, de vida (por mais que estas partes sejam vistas como “quebradas” ou “indignas”). A nossa parte sombria, os nossos sintomas, as nossas queixas, as nossas angústias, os nossos chorumes também estão vivos, ou seja, carregados de um quantum de vida que ficou esquecido/rejeitado em algum lugar do nosso psiquismo.

Quem não sente dor não pode sentir prazer; quem não sente dor, não pode estar vivo

Tentarei aprofundar. A dor ou sofrimento de cada um pertence a história de vida de cada um. É singular e intransferível. Entenda isso, caro leitor(a): ninguém pode fazer por você. Claro que dores e fenômenos coletivos também nos atravessam, mas dificilmente da mesma forma, com a mesma intensidade e significado. Cada caldeirão psíquico individual é que, alquimicamente (ao seu próprio modo), produzirá a sua “poção” única. É disso que se trata: da subjetividade, ou melhor, da intersubjetividade. Como, cada um de nós, elabora e reage diante das relações com os outros (des)conhecidos? Quais coisas vem à tona de dentro da minha alma quando me relaciono com o outro?

Retornando ao lado sombrio de cada um: ignorá-lo corresponde a ignorar a si mesmo e perder a possibilidade de integrá-lo à personalidade, pois só é possível ser inteiro aceitando os ônus e bônus de ser quem se é. Querer ficar só com o bônus, que é o que os imperativos sociais clamam hoje em dia, pode ser tentador. Mas isso é vantajoso pra quem? Certamente, a própria pessoa ganha algo com isso, mas, sem querer fazer terrorismo, a longo prazo a conta vai chegar. A ficha vai cair. E quando a ficha cair... bom, a charge abaixo do Laerte fala por si só:

laerte - a grande ficha vai cair
laerte - a grande ficha vai cair

Reconectar-se com o que é nosso

A nossa dor, por mais pesada e incômoda que seja, nos pertence. E quando nos (re)conectamos com algo que é nosso (seja visto como bom ou como ruim), recuperamos partes nossas e, portanto, ficamos mais inteiros, mais integrados. Uma espécie de remendo da personalidade. Assim, abre-se uma oportunidade de transformação. Por fim, eis o título desta conclusão: quem não sente dor não pode sentir prazer; quem não sente dor, não pode estar vivo.

Jung sobre o processo de análise/psicoterapia em sua obra A Prática da Psicoterapia observa:

O principal objetivo da Terapia Psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece no equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade.

Espero que este, como todo outro texto que teci, de alguma forma, contribua para a sua vida.

ps: não é fácil mesmo!

Julio Ito, psicólogo
JULIO ITO
Psicólogo (CRP 06/130191), psicoterapeuta junguiano, músico, facilitador de workshops, pesquisador e professor convidado do curso de Pós-graduação em Teoria e Prática Junguiana do Instituto Solaris (RJ).

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